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Música Sem Sotaque

Outro dia, ouvindo a um desses programas de rádio especializados em música sergipana, escutei um renomado artista local proferir a seguinte frase: “O Sergipano não sabe valorizar seus artistas e essa é a principal razão da grande dificuldade de conquistar público e viabilizar investimentos.”

Essa frase é cantada desde que eu me entendo por gente. É comum no meio artístico ouvir que o sergipano não consome música sergipana, que vai para bares, boates e outros eventos apenas para “curtir a night” e não para apreciar o artista que está lá se apresentando. Claro que isso é uma forma de generalizar o comportamento do público, pois tenho certeza que boa parte dele vai aos shows por gostar da banda e também porque, em sua maioria, as bandas não tocam apenas músicas próprias, apresentando também vários covers de artistas famosos. Agora, quando o assunto é a música sergipana em si, ou seja, a música composta por artistas sergipanos, a coisa realmente muda de figura. Existe mesmo uma certa rejeição. Porém, o que atualmente me pergunto é se, ao contrário do que se pensa, existe ou não boa vontade por parte do público.

O meu questionamento é se o sergipano não valoriza os artistas locais apenas por uma questão cultural ou porque não gosta da música, embora tenha a disposição de ouvi-la. Será que a nossa música é realmente boa? Será que a culpa está apenas no público? Ou essa é uma forma fácil de esconder nossas limitações?

Acho que pra responder a essa pergunta precisamos fazer algumas observações. Primeiro, precisamos separar talento de produção musical. Ou seja, não estou questionando o talento do artista sergipano, ao contrário, acredito que temos um grupo de artistas com enorme potencial. Porém, questiono a nossa capacidade de transformar esse potencial em produtos artisticamente e comercialmente viáveis. Em seguida, precisamos separar a música alternativa e a música pop. A primeira tem, a princípio, o foco na arte por si só, sem preocupar-se com as questões comerciais envolvidas; a segunda trata de produzir hits, ou seja, músicas que possam atrair grande quantidade de público e que permitam ao artista conquistar dinheiro e sucesso.

No fundo, considero que todo artista alternativo quer ser pop, e todo artista pop diz que não perdeu as referências alternativas. Mas, essa guerrinha alternativo x pop merece um post único. É uma outra discussão. Nessa discussão de hoje, quero tratar sobre os artistas que querem produzir hits.

Feitos os esclarecimentos, estamos tratando de negócios. Ou seja, na capacidade de transformar talentos em hits. De transformar arte em dinheiro e sucesso. Em ser pop. E acho que é nesse aspecto que estamos devendo e muito ao público sergipano. Eu escuto muito as músicas dos nossos artistas. Compro CDs, EPs, escuto rádio, internet, enfim, tento estar antenado no que está acontecendo. E após todos esses anos, me diga aí uma música de um artista sergipano que tenha “estourado” nacionalmente. Me diga um artista sergipano que faça sucesso por esse Brasil afora, lotando ginásios e casas de show. Não me venha falar de Calcinha Preta, porque estamos falando de música e não daquele negócio lá que eles fazem. Enfim, não consigo lembrar agora de nenhum. Será que a culpa é do nosso público? Será que o público baiano valoriza o artista baiano, ou valoriza o sucesso? Será que o pernambucano ovaciona o Maracatu de Chico Science ou aprendeu a valorizá-lo depois que ele se tornou mundialmente conhecido? Até que ponto VALOR está associado a NOTORIEDADE. Será que é o público que faz o sucesso ou o sucesso que faz o público?

Façamos uma analogia simplória. O Confiança, time de futebol sergipano, quase conseguiu classificar-se para a segunda divisão na temporada de 2008. O que se viu foi um aumento no tamanho de sua torcida. O time estava em evidência, estava na mídia, estava dando certo e foi natural que crianças e adultos embarcassem na onda. Na atual temporada o Confiança foi rebaixado para a quarta divisão. Silêncio total.

O fato é que as grandes gravadoras em associação com a mídia constroem e destroem sucessos. E Sergipe ainda não entrou nessa roda. O baiano valoriza a bahia, porque sente orgulho de um grupo de artistas que mudou a música brasileira desde os tempos de Doryval, passando por Caetano, Gil, Gal, até chegar no axé. O povo tem no que se espelhar. Tem o que defender. Mas Caetano, por exemplo, fez sucesso inicialmente cantando MPB e não música baiana. Ele fez música para o Brasil e não para a Bahia. É só ouvir seus primeiros discos.

E o que falta pra nós? O que normalmente escuto no rádio são músicas com letras ruins, arranjos insossos, produção pífia, gravações de péssima qualidade, ritmos indefinidos e péssimos cantores. Canso de ouvir cantores desafinados! Chega a ser um desrespeito com os ouvintes. Além disso, está a questão da composição em si. Não adianta o artista compor uma música direcionada pra ele ou pra uma cultura regionalizada e depois ficar reclamando que a música não faz sucesso porque o público não compra música sergipana. Se o objetivo é ter sucesso, então a música não pode estar presa a regionalismos. Ela tem que conquistar o Brasil. Nem a Bossa Nova, que considero nosso movimento mais original, é puro sangue. Tem toda a sua estrutura baseada no jazz americano. Então, qual a probabilidade do nosso samba de côco ou samba de pareia ou sei mais o quê ganhar o Brasil? Difícil. Pode até fazer sucesso na Europa, no seguimento World Music, porque o europeu considera esses e outros ritmos exóticos e culturalmente ricos. E são mesmo! Mas, não serve pra música pop.

Realmente a população de Aracaju em geral tem certa aversão a música sergipana. Parte disso é cultural, porque sofremos de uma crise de auto-estima. Não sabemos valorizar nossas qualidades. Não temos o ímpeto de descobrir coisas novas, nem de, ao menos, parar para ouvir uma música de uma banda local. Mas, é preciso dividir essa culpa com a imensa quantidade de música ruim que esse público ouviu ao longo de todos esses anos. É difícil mudar a cultura de uma população, mas essa mudança tem que partir primeiro dos artistas. Somos nós que precisamos evoluir primeiro para que a população evolua em seguida.

Talvez falte para o nosso artista se profissionalizar. Saber atingir de forma adequada o público que se quer conquistar. É bonito ser um artista integrado à cultura regional e defensor ferrenho do folclore de Laranjeiras? É sim! Claro que é. E é importante também. Mas, só não pode ir pros meios de comunicação reclamar que o povo sergipano não consome sua música, porque você não a compôs pra ele. Compôs pra Laranjeiras. Então toque por lá!

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quarta-feira, 12 agosto , 2009 - Posted by | Música

2 Comentários »

  1. É isso mesmo. E eu, como ‘público sergipano’, reafirmo que não escuto música sergipana (salvo raras exceções) porque é ruim e não porque é ‘sergipana’. E tenhamos dito :)

    ps: texto fantástico!

    Comentário por kaká | quarta-feira, 12 agosto , 2009 | Responder

  2. Muito pertinente esse tema. A arte não pode ter fronteiras.
    E é triste ver como a classe artística poe no público a responsabilidade de consumir o seu produto, como se os conterrâneos tivessem a “obrigação” de gostar de música sergipana.
    Realmente, concordo em gênero, número e grau com esse post. A classe artística tem que parar de colocar a responsabilidade em cima do público e produzir melhor seus trabalhos.
    Aliás, sinceramente falando, em arte, tema muito subjetivo, muita gente força a barra. Tem pessoas que não tem o menor talento e insistem além do limite.

    Comentário por Lelo | quarta-feira, 26 agosto , 2009 | Responder


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